UNIME — União Metropolitana de Educação
e Cultura

Denise
Ribeiro de Almeida
Tânia Moura Benevides
Empreendedorismo
– Análise do Perfil do
Empreendedor em Lauro de Freitas
Lauro
de Freitas
2005
RESUMO
Este
trabalho tem como objetivo principal traçar e analisar o perfil
do empreendedor de Lauro de Freitas, a fim de avaliar suas principais
características e a influência destas no desenvolvimento
do empreendedorismo local. A revisão bibliográfica contempla
dois aspectos distintos: aqueles relativos à realidade das micro
e pequenas empresas no Brasil e as principais teorias para a construção
do conceito de empreendedorismo. Os dados primários foram obtidos
através de elaboração e aplicação de
um formulário que contempla alguns aspectos sócio-econômicos
dos empreendedores locais, bem como questões consideradas diferenciais
no desenvolvimento do empreendedorismo formal. Após a tabulação
e análise dos dados, delineou-se o perfil do empreendedor local,
verificando-se a existência de uma cultura empreendedora incipiente
no município a necessidade de desenvolvimento de uma cultura empreendedora
formal no município.
1
INTRODUÇÃO
A
atividade empreendedora vem se fortalecendo como alternativa ao escasseamento
do emprego formal no país como um todo. Esta é uma questão
mais presente nas regiões do Brasil de menor poder aquisitivo e
que ainda não possuem claramente definida sua vocação
para o desenvolvimento econômico, situação vivenciada
pela região Nordeste, no geral.
A nova realidade sócio-econômica brasileira tem levado a
um aumento significativo de novos empreendimentos, que são utilizados
não somente como atividade inicial de ingresso no mercado profissional,
como também de realocacão de profissionais que, espontaneamente
ou não, deixaram de ter vínculos empregatícios de
natureza diversa. Não existe, porém, no seio dessa nova
população empreendedora um nível padronizado de conhecimentos
gerenciais imprescindíveis à operacionalização
do dia-a-dia empresarial nem aos aspectos estratégicos mais amplos.
De acordo com o IBGE (2003), as principais características do micro
e pequeno empresário brasileiro se resumem em: baixa intensidade
de capital; altas taxas de natalidade e mortalidade empresarial; poder
decisório centralizado; registros contábil-financeiros inadequados;
mão-de-obra não qualificada; baixo ou nenhum investimento
tecnológico; dificuldade no acesso ao capital de giro, dentre outras
menos importantes. Essas características, em sua grande maioria,
também podem ser consideradas como problemas que contribuem para
o alto nível de mortalidade dessas empresas.
Associada a essas questões, existe no Brasil uma cultura errônea
e fortemente arraigada de que para empreender com sucesso são necessárias
poucas habilidades e conhecimentos. Basta a criatividade para se desenvolver
uma idéia inovadora, ou então essa característica
pode ser substituída/complementada pelo trabalho árduo e
constante do empreendedor. Esses conceitos, por não levarem em
conta que a complexidade das organizações no mundo atual
requer treinamento e desenvolvimento de habilidades específicas,
tende a levá-las ao fracasso de forma muito rápida, causando
alto índice de mortalidade nas Pequenas e Médias Empresas
(PME´s).
Tendo em vista a problemática descrita, optou-se pela realização,
em parceria com o SEBRAE, de um estudo de levantamento das características
de perfil do empreendedor que foge do senso comum e busca um apoio técnico
nas diversas etapas do seu negócio. Selecionou-se como espaço
geográfico da pesquisa de campo realizada o município de
Lauro de Freitas.
Lauro de Freitas é um exemplo típico de município
de porte médio, que se enquadra na situação sócio-econômica
anteriormente descrita. A cidade está localizada na Região
Metropolitana de Salvador (RMS), tendo sido emancipada há cerca
de 30 anos. De acordo com dados do IBGE (2005), possui população
de 113.543 habitantes, com renda média mensal de R$ 707,30. Por
sua proximidade geográfica de Salvador e das cidades que compõe
o principal pólo industrial do estado da Bahia, atraiu e continua
atraindo uma população proveniente de outros estados do
Brasil, tendo esta faixa da população um padrão de
renda mais alto do que o habitante médio. Sendo assim, o município
tem apresentado como característica marcante, nos anos mais recentes,
o aumento do número de novos empreendimentos, voltados principalmente
para os setores de comércio e serviços, o que levou a sua
escolha para aplicação da pesquisa de campo.
Este artigo foi desenvolvido com uma revisão dos principais fundamentos
teóricos dos aspectos relativos às características
das PME´s brasileiras no geral e do empreendedorismo. Na seqüência,
é apresentada a metodologia utilizada, bem como os resultados e
análises provenientes da pesquisa de campo. Por fim, são
trazidas as conclusões e sugestões provenientes do estudo.
2.
PEQUENAS E MICROEMPRESAS (PME´S) NO BRASIL
Esta
seção tem início com a apresentação
dos principais conceitos que caracterizam as pequenas e microempresas
no Brasil, de acordo com os aspectos legais definidos na Lei nº 9.841-
Estatuto da Microempresa e Empresa de Pequeno Porte (1999) e de dois dos
principais agentes fomentadores desse segmento, o SEBRAE (suporte técnico)
e o BNDES (suporte financeiro).
Tanto a Lei nº 9.841 quanto o BNDES consideram dados de faturamento
para enquadrar as empresas como PME´s. No caso da primeira, são
consideradas microempresas aquelas com faturamento até R$ 244.000;
para o BNDES (2005), esse patamar é de R$ 700.000. Para a classificação
como pequena empresa, o BNDES considera o intervalo de faturamento compreendido
entre R$ 700.000 e R$ 6,125 milhões, valor bastante superior ao
da legislação, que considera o intervalo entre R$ 244.000
e R$ 1,2 milhões.
A classificação do SEBRAE parece a mais próxima da
realidade brasileira, levando em conta o número de empregados com
a seguinte composição: microempresa até 9 empregados
e, pequena empresa, de 10 a 49 empregados. Apesar disso, não pode
ser esquecido que nesse critério não são consideradas
as especificidades de negócios distintos, que podem ser mais ou
menos intensivos em relação à utilização
de mão-de-obra como fonte geradora de receitas. Esta característica
se torna especialmente interessante quando se consideram as empresas prestadoras
de serviços diferenciais (consultoria, tecnologia, serviços
jurídicos etc.), pouco intensivas de mão-de-obra e geradoras
de resultados altos.
Serão apresentadas a seguir algumas das características
consideradas relevantes no perfil das PME´s brasileiras. Os dados
foram levantados da bibliografia disponível, nas principais entidades
com atuação nesse segmento empresarial.
De acordo com o IBGE (2003), o número total de empresas de todos
os portes, em atividade no Brasil, em 2002, era de 4.918.370 unidades,
distribuídas nos quatro macrosetores econômicos(indústria,
construção, comércio e serviços). As PME´s
representavam, neste ano, 99,2% deste total.
Percebe-se ainda a predominância de empresas com atuação
nos setores de comércio e serviços. Isto se dá em
decorrência desses empreendimentos possuírem menores necessidades
de investimentos, associado à presença de processos gestores
menos complexos, pelo fato de possuírem processos produtivos e
de controle menos elaborados. Esses aspectos parecem ser comprovados quando
se verifica nas micro empresas a predominância numérica do
setor comercial (menores níveis de investimento e complexidade
gestora), situação invertida nas pequenas empresas, que
já contam com maiores recursos para investimento e que apresentam
o setor de serviços como principal foco.
O quadro a seguir apresenta estas relações numéricas,
nas micro e pequenas empresas formais brasileiras, demonstrando ainda
a predominância dos setores comercial e de serviços como
citado. Outra
característica importante das PME´s, formalmente constituídas,
diz respeito à sua capacidade de geração de empregos
nas áreas urbanas. De acordo com dados do IBGE esses números
passaram de aproximadamente 3,5 milhões de postos de trabalho formal,
em 1985 (cerca de 51% do volume de emprego no Brasil) para, em 2002, um
total de 27.561.924, sendo 57,2% deste número representado pelos
empregos gerados nas PME´s. O quadro a seguir apresenta as relações
numéricas, por setor, das micro e pequenas empresas formais, no
país em 2002, demonstrando também a predominância
dos setores comercial e de serviços.
A composição
por setor em relação a essa variável é semelhante
à apresentada para a variável de porte empresarial. As microempresas
possuem maior concentração de emprego formal nos setores
de comércio e serviços (81% do total). Já as pequenas
empresas possuem 69% do total de empregos gerados nos dois setores, porém
com predominância do setor de serviços, o que também
demonstra a maior capacidade de investimentos destas, como citado.
Outra característica importante, e fortemente associada à
capacidade de geração de emprego formal, diz respeito aos
níveis salariais encontrados nas PME´s brasileiras. As micro
e pequenas empresas pagaram em 2002, salários de R$ 56,0 bilhões,
representando 26% do total de remuneração nesse ano. De
acordo com dados do IBGE (2003), os empregos formais perfazem uma remuneração
média mensal de 1,7 salários mínimos nas PME´s,
contra uma remuneração de 4,3 mínimos nas médias
e grandes empresas. Este é um indicador que reforça a presença
de mão-de-obra menos qualificada neste segmento empresarial, podendo
ser apontado como fator negativo em relação à sua
capacidade gestora, com efeitos diretos no nível de mortalidade.
O salário médio do comércio é de 1,5 salário-mínimo,
em comparação com 2,0 salários-mínimos no
setor de serviços, o que denota uma possível menor qualificação
dos empregados com atuação no setor comercial.
No tocante à geração de receitas, no período
de 2002/2003, a participação das PME´s passou de R$
149,6 milhões para R$ 168,2 milhões (crescimento de 12,4%),
contra um decréscimo de 9% da contribuição das médias
e grandes empresas, sinalizando o crescimento da participação
econômica desse segmento empresarial na economia brasileira.
Duas outras características das PME´s já citadas merecem
agora um maior detalhamento - natalidade e mortalidade - pois ambas se
constituem em fatores que reforçam a necessidade do desenvolvimento
de técnicas gestoras formais junto aos potenciais empresários,
para que seja possível o aumento do tempo de permanência
no mercado desses empreendimentos.
São apresentados a seguir alguns dados referentes a esses aspectos,
em relação às PME´s que atuam nos setores de
comércio e serviços, setores de interesse prioritário
dessas empresas, pelo baixo nível de investimento necessário.
Ambos representam em conjunto cerca de 80% do total das empresas de pequeno
porte no Brasil.
Verificam-se aqui índices de natalidade mais elevados no setor
de serviços de menor porte, o que pode ter como explicação,
mais uma vez, as necessidades de investimentos financeiros menores nestes
negócios, quando comparados aos empreendimentos comerciais, o que
pode funcionar como um estímulo ao empreender. As taxas de mortalidade
para ambos os setores são expressivas, com predominância
do segmento de serviços. Este dado reforça a suposição
da necessidade de desenvolvimento de capacidade gestora real, como forma
de permitir a continuidade das empresas de micro e pequeno porte no mercado.
3. EMPREENDEDORISMO
Quando
se fala em empreendedorismo, os primeiros conceitos que devem ser levados
em conta são os de empreendedores e empreendimentos. Para Schumpeter
(1978), o empreendimento é a realização de combinações
novas; ao empreendedor, denominado por ele de empresário, atribui-se
a função de realização dessas combinações.
O autor diz ainda que o empresário pode ser considerado o pilar
da economia de trocas. Say in Schumpeter (1978) define que a função
do empresário é reunir e combinar fatores produtivos, classificando
como especial a atuação do empresário que realiza
essa combinação pela primeira vez.
Ainda segundo Schumpeter (1978), o empreendedorismo pode se dar de formas
distintas: introdução de um novo bem; introdução
de um novo método de produção; abertura de um novo
mercado; conquista de uma nova fonte de oferta de matérias-primas
ou bens semimanufaturados; e, estabelecimento de uma nova organização
de qualquer natureza. Nas duas primeiras formas o foco se dá através
da inovação. Nas demais, pela identificação
de oportunidades.
De acordo com Drucker (1986) ao empreender, a busca pela inovação
e o conhecimento dos seus princípios devem estar associados à
sua prática como forma de garantir o sucesso do empreendimento.
Visões mais atuais, entretanto ainda muito próximas às
de Say e Shumpeter, são apresentadas na tentativa de incrementar
as possibilidades de desenvolvimento de novos negócios. Para o
Global Entrepreneurship Monitor (GEM), empreendedorismo é “Qualquer
tentativa de criação de um novo negócio [...], como
por exemplo, uma unidade autônoma, uma nova empresa, ou a expansão
de um empreendimento existente, por um indivíduo, grupos de indivíduos
ou por empresas já estabelecidas.” (GEM, 2003, p.5)
É indiscutível que a figura do empreendedor é fundamental
para a consolidação de um novo empreendimento. Shumpeter
(1978) reforça essa visão quando diz que o empresário
é a força motriz de um grande número de fenômenos
significativos no âmbito econômico. Drucker (2002) torna ainda
mais enfática a importância do papel do empreendedor quando
afirma:
O executivo tem que aceitar a responsabilidade de fazer o futuro acontecer.
É a disposição de atacar com vontade a última
das tarefas econômicas da empresa [...], que distingue [...] o construtor
de empresas daquele que apenas ocupa a sala da presidência.
Portanto as
características do perfil do empreendedor são relevantes
na definição do sucesso empresarial. Bernardi (2003) destaca:
o senso de oportunidade; a dominância; a agressividade e energia
para realizar; a autoconfiança; a independência; a persistência;
a flexibilidade; a resistência à frustração;
a criatividade; a propensão ao risco e a habilidade de relacionamento
como características diferenciais no traço do perfil do
empreendedor.
Bernardi (2003) diz ainda que é um mito a afirmação
de que não é possível desenvolver o empreendedorismo,
ele salienta que a origem de um empreendimento pode se dar em várias
circunstâncias, que podem ou não estar relacionadas aos traços
de personalidade do empreendedor.
No Brasil, independentemente da circunstância, segundo o relatório
do GEM (2003), o empreendedor tem muita vontade de empreender e algumas
habilidades, entretanto falta-lhe competência, geralmente obtida
através do estudo e planejamento. A busca de informações
confiáveis e a realização de estudos sistemáticos
por meio de pesquisa de mercado são substituídas por conhecimento
empírico, obtido principalmente de opiniões de familiares
e amigos.
Ainda segundo o GEM (2003), os empreendedores com perfil excessivamente
técnico não reconhecem a necessidade de conhecimento sobre
negócios, gestão e mercados, e dedicam-se apenas ao desenvolvimento
do produto. Esse aspecto é agravado em função da
dispersão e baixa oferta dos programas de formação
para empreendedorismo.
A capacidade empreendedora de uma região pode variar a partir de
diferentes abordagens econômicas e sociais, entretanto a compreensão
do potencial, experiência, motivação e o domínio
das competências necessárias para a iniciativa empreendedora
podem favorecer o desenvolvimento regional, a partir da aplicação
de estímulos favoráveis ao potencial local.
O GEM desenvolveu o conceito de nível de empreendedorismo medido
pela Taxa Total de Atividade Empreendedora (TEA). Esta taxa é definida
como “a porcentagem da força de trabalho que está
ativamente iniciando novos empreendimentos ou é proprietária/gerente
de empreendimentos com menos de 42 meses”, em diversas regiões.
Na análise dessa taxa devem ser levados em conta aspectos relativos
ao nível de desenvolvimento econômico. O maior expoente,
em 2003, foi obtido por Uganda (30%) e o menor pela França (4 %).
Parece claro então que a obtenção de altos percentuais
pode denotar a motivação empreendedora direcionada à
necessidade de sobrevivência, e não à busca de novas
oportunidades e inovações. Esse é um fato que pode
levar ao aumento dos índices de mortalidade em empresas que se
instalam em regiões com tais características.
Na pesquisa realizada em 2003, foi registrada pelo GEM a taxa de 12,9%
para o Brasil, correspondendo ao sexto lugar no ranking mundial. A evolução
desse indicador desde 2000 (21,4%) até o número atual pode
ser reflexo da melhoria do cenário econômico-social brasileiro,
pois a TEA média no período foi 15%. Vários fatores
são ainda apresentados nesse relatório como impactantes
no processo empreendedor, dentre esses podem ser citados: apoio financeiro;
políticas e programas governamentais; educação e
treinamento; pesquisa e desenvolvimento tecnológicos; infra-estrutura
comercial e profissional; abertura de mercado; normas culturais e sociais
e capacidade de empreender.
A região Nordeste apresentou no período de 2000/2003 a TEA
média de 14%. A taxa média inferior à nacional pode
indicar um alto grau de informalidade na economia da região, uma
vez que seus estados possuem índices altos de desemprego frente
aos padrões nacionais.
4. METODOLOGIA
Tendo
em vista que o objetivo deste estudo consiste na identificação
e análise das características profissionais/pessoais componentes
do perfil do empreendedor do município de Lauro de Freitas, pode-se
considerar que se trata de um trabalho de investigação exploratória,
com aplicação de pesquisa de campo. (VERGARA, 2004, p.47).
Para a coleta de dados foi utilizada a técnica de elaboração/aplicação
de formulário, composto por perguntas fechadas e semi-abertas.
O instrumento foi aplicado junto aos empreendedores e potenciais empreendedores
que buscaram o suporte do SEBRAE -Agência Costa dos Coqueiros no
mês de março de 2005. De acordo com Lakatos e Marconi (2002),
o formulário é o instrumento de pesquisa para investigação
social utilizado na obtenção de dados, diretamente aplicado
ao respondente.
De acordo com Vergara (2004), a população do presente estudo
é composta por todos os empreendedores e potenciais empreendedores
do município de Lauro de Freitas. A amostra, ou população
amostral foi selecionada com a utilização do método
de acessibilidade, que de acordo com a mesma autora deve ser utilizado
quando necessidades de acesso à amostra eliminam procedimentos
estatísticos.
O formulário foi aplicado junto a 100 empreendedores, pelos funcionários
do SEBRAE, sob a supervisão direta das autoras.
No tocante aos dados secundários, foram utilizados como fonte de
coleta a pesquisa bibliográfica a publicações escritas
e eletrônicas do IBGE, BNDES e SEBRAE, e em autores de reconhecido
saber nas áreas estudadas. A preocupação expressa
por Gil (1999) em relação à confiabilidade dos dados
obtidos dessa forma é minimizada pela qualidade das fontes. Em
essência, buscou-se a leitura de originais e publicações
oficiais.
Na etapa de análise dos dados foi utilizado o software SPHINX Plus,
para a obtenção de informações. Estas são
apresentadas sob a forma de gráficos, que foram analisados individualmente
e em conjunto, de forma quantitativa. (GIL, 1999, p.172-173).
5.
RESULTADOS E ANÁLISE DOS DADOS
Esta
parte do artigo se inicia com a descrição do perfil do grupo
de empreendedores pesquisados, no que diz respeito às suas principais
características sócio-demográficas. Considera-se
que essas são informações relevantes na delineação
do perfil do empreendedor do município de Lauro de Freitas. Os
gráficos foram elaborados a partir dos dados considerados mais
relevantes no rol dos itens pesquisados.
Como na análise dos dados não se notou a predominância
significativa de um sexo sobre o outro como fator decisivo na opção
de empreender (sexo feminino – 49% e masculino – 51%), considerou-se
a faixa etária do grupo pesquisado como primeira variável
relevante. O gráfico abaixo demonstra que o maior nível
de concentração encontra-se nas três primeiras faixas
etárias (dos 18 aos 48 anos), com predominância dos mais
jovens e divisão praticamente igual entre as outras duas faixas.
Esse fato parece indicar a busca por empreender como forma alternativa
de geração de renda, seja como primeiro emprego, seja como
forma de recolocação no mercado de trabalho ou, ainda, complementação
de aposentadoria, o que é reforçado pelos índices
atuais de emprego no estado da Bahia.
Gráfico
1 – Distribuição por faixa etária

A
conclusão anterior é reforçada pela análise
da variável referente à composição da renda
familiar apresentada no grupo pesquisado. Esta análise reforça
a suposição anterior de que atividade empreendedora opera
como opção ao mercado de trabalho, tendo em vista que os
maiores índices encontram-se nas mais baixas faixas de renda familiar
(56% até 10 salários mínimos). O gráfico a
seguir sintetiza estes resultados.
Gráfico 2 – Faixas de renda familiar

O
gráfico apresentado a seguir traz informações a respeito
da formação acadêmica desse grupo de empreendedores,
apontando a maior faixa de potenciais empreendedores com formação
superior completa ou incompleta (67%), o que parece reforçar o
aspecto de empreender como alternativa ao mercado de trabalho formal e
níveis atuais de remuneração no estado.
Gráfico
3 – Formação Acadêmica

A
conclusão de empreender como alternativa ao ingresso ou permanência
no mercado formal de trabalho não foi, porém, verificada
quando os entrevistados foram questionados diretamente sobre a sua razão
de empreender. Nessa pergunta, os participantes citaram o ato de empreender
como alternativa ao mercado de trabalho em apenas 28% dos casos, sendo
a grande maioria das resposta concentrada na vontade de empreender (46%).
Esses dados podem ser mais bem visualizados no gráfico abaixo.
Gráfico
4 – Circunstâncias para empreender

Dentre
os empreendedores entrevistados, 60% não possuem experiência
prévia em empreendimentos próprios. Dos 40% que possuíam
experiência anterior, apenas 21% continuam com o empreendimento.
Essa informação é importante, pois denota um alto
índice de mortalidade destes negócios. Tendo em vista a
expectativa da existência destes altos índices, foi formulada
no instrumento de pesquisa, uma questão aplicada apenas àqueles
que tiveram seus negócios extintos. Esta pergunta versa sobre as
causas de fechamento dos seus empreendimentos. Estes dados são
apresentados no gráfico a seguir.
Gráfico
5 – Razões da Mortalidade

A
causa apontada como mais significativa são as dificuldades financeiras,
seguidas pelas societárias e gestoras. Essas dificuldades são
conseqüência da falta de desenvolvimento de uma cultura empreendedora
formal por parte do micro e pequeno empresário. Outro aspecto relevante
é a característica de dependência total ou complementar
em relação aos recursos gerados pelo empreendimento na composição
da renda familiar, fator reforçado pelo perfil de renda apresentado
anteriormente. De acordo com pesquisas (quadro 3) realizadas pelo CEMPRE,
uma das principais razões de mortalidade em empreendimentos desse
porte reside na falta de acesso ao crédito, reforçando a
hipótese de que quanto menor a empresa, maior o risco correspondente
à dependência financeira dos sócios aos seus resultados.
A vocação comercial e prestadora de serviços do município
de Lauro de Freitas é bem delineada no tipo de empreendimentos
potenciais apontados pelos entrevistados: 71% dos respondentes pretende
iniciar um negócio em uma destas duas áreas: Comércio
(31%) e Serviços (40%). Esta composição de perfil
de negócios assemelha-se à apresentada no país como
um todo, de acordo com dados do SEBRAE (Quadros 1 e 2). O gráfico
a seguir apresenta a visualização dos diferentes tipos de
empreendimentos encontrados na pesquisa de campo.
Gráfico
6 – Tipo de Empreendimento

As
variáveis consideradas diferenciais de sucesso pelos empreendedores
entrevistados estão representadas no gráfico a seguir.
Gráfico 7 – Variáveis de Sucesso

As
respostas aqui encontradas atingiram as expectativas, já que a
alternativa mais pontuada consolida os resultados encontrados na análise
das variáveis anteriores. Um fator que deve ser destacado diz respeito
à necessidade do empreendedor em desenvolver “cultura empreendedora”,
o que parece estar diretamente ligado ao nível de insucesso dos
empreendimentos anteriores. Uma outra percepção importante
do grupo pesquisado é a forte expectativa em relação
ao apoio de entidades fomentadoras ou governo, comprovada quando 49% dos
respondentes apontam o papel do SEBRAE como muito relevante no seu processo
de empreendedorismo.
6. CONCLUSÃO
Como
principal produto do trabalho realizado, delineia-se o perfil do empreendedor
no município de Lauro de Freitas como segue. O empreendedor, representado
nesta pesquisa pelo pequeno e micro empresário, apresenta maior
concentração na faixa etária compreendida entre 18
e 28 anos, com pequena prevalência do sexo feminino. Sua faixa de
renda familiar encontra-se no patamar compreendido entre 0 e 5 salários-
mínimos, com nível de escolaridade majoritariamente formado
por superior completo. Desses empreendedores, 61% são residentes
no município de Lauro de Freitas, sendo que apenas 40% possui experiência
empresarial anterior com alto nível de mortalidade, uma vez que
somente 21% deste total deu continuidade ao empreendimento original. As
razões para insucesso dos empreendimentos anteriores estão
focadas nos aspectos financeiros. Os potenciais empreendimentos estão
voltados prioritariamente para as áreas comercial e de serviços.
O principal motivador ao novo empreendimento está relacionado ao
que é qualificado pelos entrevistados como “motivação
empreendedora”, sendo pouco considerados os aspectos técnicos
inerentes à atividade que se pretende implantar. O grupo revela
ainda a necessidade de apoio do governo ou de entidades fomentadoras,
atribuindo ao SEBRAE um papel diferencial no sucesso do seu empreendimento.
Apesar de o município não possuir incubadora de empresas
com atuação relevante, os pesquisados demonstram bom índice
de conhecimento em relação a esse facilitador das atividades
de suporte ao empreendedorismo (51%). Algumas considerações
devem ser feitas a partir da análise mais detalhada desse perfil.
Apesar de a grande maioria dos entrevistados afirmar que a vontade de
empreender é o grande diferencial na sua opção por
um novo negócio, os indicadores de faixa etária e de renda
familiar, aparentemente, contradizem essa suposição. Pode
ser levantada a hipótese contrária de que a necessidade
de empreender no município de Lauro de Freitas está vinculada
à geração de renda familiar total ou adicional. Essa
hipótese é corroborada com a TEA brasileira (12,9%), indicadora
de altos índices de empreendedorismo nacional, voltados ao atendimento
da necessidade de sobrevivência e não de busca de oportunidades
ou inovação.
Essa suposição também é fortalecida pelo forte
direcionamento de novos empreendimentos aos setores de comércio
e serviços, tradicionalmente setores com menor índice de
complexidade, com baixo índice de implementação de
inovação, o que leva à necessidade de qualificação
empreendedora, pelo menos teoricamente, mais baixa, ainda que o perfil
delineado aponte alto indicador numérico de entrevistados com nível
superior completo, ou seja, a princípio tecnicamente melhor habilitados.
A inexistência de cultura empreendedora é facilmente percebida
quando se identifica que os entrevistados atribuem o sucesso ou fracasso
do empreendimento a fatores externos à empresa, apontando uma forte
dependência ao apoio governamental e/ou entidades fomentadoras de
desenvolvimento.
Como conclusão final do trabalho, pode ser apontado que o micro
e pequeno empresário de Lauro de Freitas ainda não despertou
para a necessidade de busca do desenvolvimento do arcabouço técnico
necessário ao desenvolvimento de uma efetiva cultura empreendedora
que facilite não só a natalidade, mas garanta principalmente
a sobrevivência dos empreendimentos por meio de uma gestão
profissional.
Com os resultados obtidos, observa-se a necessidade de extensão
dessa pesquisa para melhor avaliar as reais razões que levam os
micro e pequenos empresários a buscarem apoio técnico nas
entidades fomentadoras de desenvolvimento de empreendimentos desta natureza,
já que este é um fator que pode vir a mudar a perspectiva
do empreendedorismo local.
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