| |
UNIME — União Metropolitana de Educação
e Cultura

Sílvio
Vanderlei Araújo Sousa
Estratégias Competitivas na Indústria de Software
Lauro de Freitas
2005
RESUMO
Este
trabalho compreende um ensaio teórico acerca das estratégias
competitivas adotadas na indústria de software. Para a sua realização
foi efetuada a revisão do referencial teórico sobre estudos
de competitividade acrescida de estudos e trabalhos concernentes às
empresas e à estrutura de mercado da referida indústria.
Para tanto, inicia-se com a introdução onde são discutidos
objetivos e justificativas para a realização deste estudo.
Em seguida, é realizada uma breve discussão sobre seus processos
produtivos, destacando-se os produtos obtidos em cada etapa de sua cadeia
de valor. Completando o trabalho, são analisados os padrões
de concorrência predominantes, juntamente com a percepção
das estratégias competitivas empregadas aos segmentos de mercado
da indústria.
PALAVRAS-CHAVE:
ESTRATÉGIAS COMPETITIVAS – SOFTWARE; COMPETITIVIDADE –
INDÚSTRIA – SOFTWARE; DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO –
SOFTWARE.
1 INTRODUÇÃO
Neste
trabalho, entende-se por software uma seqüência lógica
de instruções que coordenam a operação de
um processador com função e comportamento definidos. O software
exige para a sua construção um projeto de engenharia conforme
especificação definida pelo usuário – cliente,
o qual se encontra dividido em várias etapas. Dessa forma, percebe-se
que a produção de software envolve uma série de etapas
interdependentes, as quais exigem conhecimentos e competências específicas.
Seguindo essa abordagem, considera-se a indústria de software como
o conjunto de firmas que possuem capacitações similares
para a prestação de serviços nas etapas do processo
de construção de software.
A definição tradicional de indústria tenderia à
formação de vários tipos de indústria de software.
O problema se encontra no conceito de similaridade de software, que deve
ser entendido de forma diferente da similaridade para um produto manufaturado,
pois, embora existam diversos softwares para áreas de aplicações
comuns, suas funcionalidades e objetivos podem ser bens distintos, não
cabendo nesses casos as classificações de similaridades.
Neste trabalho, opta-se também pela definição de
serviços adotada por Teixeira e Guerra (2002, p.195). Esses autores
observam que “[...] a tradicional divisão entre setor primário,
secundário e terciário apóia-se na distinção
entre atividades que resultam em trocas no mercado de bens materiais e
todas as demais que não possuem um claro relacionamento com algo
tangível são identificadas como serviços”.
Portanto, de acordo com esses conceitos, considera-se que a indústria
de software se constitui de empresas cuja atividade principal se concentra
na troca de serviços de construção de software com
o mercado.
A escolha desse setor como objeto de estudo da pesquisa está baseada
no papel que o software representa na dinâmica das economias modernas.
O crescimento econômico se manifesta cada vez mais associado à
introdução de inovações tecnológicas
inerentes à Tecnologia da Informação (TI), que está
rapidamente reestruturando as formas de competir em praticamente todos
os setores produtivos.
A expansão do setor de software seria fundamental para o aumento
da produção e da exportação de bens e serviços
de alto valor adicionado, seguindo o exemplo da indústria de software
de regiões localizadas em países como Irlanda, Índia
e Israel.
A questão central sobre o software é que seu emprego se
tornou uma característica dominante nas economias modernas devido
à contribuição para a aceleração do
processo de desenvolvimento tecnológico. A maciça utilização
da TI, em paralelo aos acordos internacionais de comércio, aos
investimentos nas malhas de transporte e ao desenvolvimento dos sistemas
de telecomunicações, eliminou algumas das antigas barreiras
de comércio e proporcionou a melhoria da eficiência do fluxo
de distribuição de bens e serviços.
As atividades relacionadas à TI, teriam, nesse contexto, um importante
papel no desenvolvimento social e econômico de uma determinada região.
Se, por um lado, poderiam fortalecer as empresas inovadoras, por outro,
poderiam servir de ferramenta para o desenvolvimento social, seja através
da geração de novos postos de trabalho e renda, seja através
do suporte tecnológico à difusão de informação
na sociedade.
Levando-se em consideração o diamante de Porter (1989),
percebem-se ainda outras justificativas para a viabilização
de um estudo na indústria de software. Esse autor destaca algumas
implicações importantes decorrentes dos relacionamentos
entre clientes e fornecedores. Entre elas, pode-se destacar o papel peculiar
da indústria de software para o desenvolvimento das demais indústrias
de uma determinada região. Evidencia-se, aqui, a importância
do seu apoio às demais indústrias provendo a base tecnológica
necessária às atividades dinâmicas das grandes empresas
da atualidade.
A existência de uma indústria de software consolidada se
faz essencial à manutenção dos negócios das
empresas, haja vista o intenso uso da TI nas organizações
modernas. A cooperação com a indústria de software
poderia promover maior desenvolvimento tecnológico e reduzir os
custos de transação. Em paralelo, fomenta-se a criação
de postos de trabalho, proporcionando maior desenvolvimento social à
região.
Um país sem uma posição favorável em serviços
perderia cada vez mais em renda nacional, bem como em vantagens para a
posição competitiva de outras indústrias. Logo, a
indústria de software também se apresenta importante sobre
o aspecto da manutenção dos demais empreendimentos empresariais.
Ademais, busca-se o conhecimento sobre as estratégias competitivas
adotadas na indústria de software e o grau de penetração
nos segmentos de mercado.
Neste sentido, tentar-se-á documentar a perspectiva da concepção
das estratégias para competição não só
sob uma orientação de valorização do capital,
como também do volume das capacitações, do conhecimento
acumulado e das possibilidades de desenvolvimento social.
Afinal, a análise do conteúdo apresentado até aqui
permite esboçar o objetivo central do trabalho que se refere ao
mapeamento das estratégias competitivas em consonância às
especificidades da indústria de software.
Dadas as justificativas apresentadas anteriormente, a estrutura deste
documento foi dividida em quatro seções de forma a orientar
o leitor à compreensão do tema: esta, que trata das justificativas
e problematização acerca do trabalho, e outras três
que contemplam os aspectos mais relevantes oriundos da realização
do presente estudo.
Na segunda seção, é apresentada uma abordagem para
a produção de software, descrevendo-se as etapas e subprodutos
gerados na cadeia de valor.
Na terceira, são discutidos os aspectos relevantes para a elaboração
e implementação das estratégias competitivas na indústria
e suas implicações nas estruturas de mercado.
Por fim, insere-se uma seção contendo as conclusões
do trabalho, tomadas como base as percepções apresentadas
nas demais seções.
2 O PROCESSO PRODUTIVO
Atualmente,
a produção de um software se compõe de várias
fases, nas quais são utilizados conjuntos diversos de técnicas,
modelos e ferramentas encadeadas logicamente de forma a guiar o analista
de sistemas e o programador no processo de sua construção.
Para o desenvolvimento das fases, geralmente são empregadas metodologias
cujos principais objetivos são aumentar a qualidade do produto
final e melhorar os índices de produtividade do processo.
As etapas de construção do software são bem distintas
e modulares. Embora não exista uma metodologia única de
desenvolvimento de projetos de softwares, uma proposta de ciclo de vida
de projeto pode ser concebida dividindo-se as atividades nas seguintes
etapas:
-
Proposta Técnica;
-
Especificação de Requisitos;
- Análise
do Sistema;
- Prototipação;
- Projeto
do Sistema;
- Implementação;
- Testes;
- Implantação;
- Manutenção.
Cada
etapa é concretizada de forma a se produzir resultados a serem
utilizados nas etapas seguintes. A transição entre etapas
deve ser reforçada principalmente na passagem da Especificação
de Requisitos para a Análise do Sistema e na passagem da fase de
Prototipação para o Projeto do Sistema. Isto se deve ao
fato de que estes são pontos críticos da metodologia de
desenvolvimento, em que a validação do usuário é
condição essencial para que se possa avançar no processo
de desenvolvimento. As demais transições são mais
suaves e às vezes imperceptíveis.
A elaboração da proposta técnica é uma atividade
essencial para a definição do escopo do sistema. Esta definição
deve especificar claramente os limites de atuação do sistema,
suas principais funcionalidades e arquitetura tecnológica a ser
utilizada na solução. É o documento que irá
servir para quantificar os recursos necessários a todo o processo
de desenvolvimento e implantação do software.
A especificação de requisitos é a fase em que o analista
de sistema e o gerente do projeto especificam, detalhadamente, as condições
que o produto final deverá satisfazer. Estas condições
representam a tradução dos requisitos funcionais, de informação
e de interface do projeto.
A análise do sistema é a fase onde o analista identifica
as classes de negócio da aplicação, seus relacionamentos,
principais atributos e métodos.
Na prototipação, são criados modelos do software
que permitam ao usuário navegar entre telas e simular as funcionalidades
do sistema, conhecendo o seu potencial e apontando eventuais falhas e
não conformidades.
O projeto do sistema deve ser iniciado após a aprovação
do protótipo e irá incorporar as classes que implementam
as funcionalidades do software para fazer com que o sistema funcione.
São classes de suporte a acesso a bancos de dados, construção
de interfaces, comunicação em rede, conversão de
dados, criação de objetos etc. Idealmente, este conjunto
de classes deve estar predefinido e organizado em um framework de forma
a facilitar o projeto da arquitetura do software e sua futura implementação.
O framework representa a arquitetura do sistema e se mostra essencial
nesta etapa para ratificação dos padrões de desenvolvimento
e obtenção de ganhos de escala na produção.
A implementação do sistema é a etapa na qual o programador
codifica o sistema e deve ser a atividade mais simples de todo o processo,
pois todas as definições conceituais, lógicas e de
arquitetura já devem ter sido realizadas nas etapas anteriores.
Nesta etapa, recomenda-se a utilização de ferramentas automatizadas
para reduzir o tempo de codificação através da geração
automática de código.
O teste do sistema é a etapa onde se validam as especificações
de requisitos e análise do sistema e são executados pela
equipe de desenvolvimento à medida que os módulos ou componentes
vão sendo disponibilizados. Ao final do processo, é necessária
a realização de testes de integração entre
as partes do sistema e o ambiente do cliente.
Todas estas etapas devem estar sempre sendo acompanhadas pelo comitê
de liderança, principalmente pelos representantes do cliente, para
que se evite a descoberta tardia de problemas de concepção
do software.
A implantação do software é um processo que requer
um planejamento específico, pois envolve mudanças operacionais
nas rotinas dos usuários, inspira medo e desconfiança nas
pessoas e pode comprometer todo o trabalho de desenvolvimento. É
preciso conscientizar os usuários da importância da utilização
do software para a organização, contar com o apoio da alta
gerência e planejar todos os passos do processo (instalação,
treinamento, entrada de dados, estabilidade, performance, etc.).
Ao final do trabalho, espera-se que o software esteja atendendo e superando
as expectativas do cliente, pois a falta de adequação aos
requisitos se traduz em deficiência de qualidade e, em alguns casos,
poderá implicar o fracasso do projeto.
Em relação à manutenção, esta ocorre
ocasionalmente após a etapa de implantação e decorre
geralmente de melhorias ou correções nos sistemas.
No decorrer das etapas do processo de desenvolvimento de software ocorre
uso intensivo de capital intelectual apoiado pela aplicação
de vários métodos, como FPA (Function Points Analysis),
CMM (Capability Maturity Model), Detecção e Prevenção
de defeitos, ferramentas CASE (Computer-Aided Software Engineering), Frameworks
e normas, como ISO/IEC 9126, ISO/IEC 12119, ISO/IEC 12207, de forma a
se obter maior produtividade e melhoria da qualidade global do projeto.
Análises dessas etapas permitiram observar que se dá uma
maior adição de valor nas fases de análise e projeto
do sistema, enquanto as etapas de programação e testes,
instalação e manutenção se posicionaram no
nível mais baixo de retorno da cadeia de valor (HEEKS, 1996).
Além disso, os processos envolvidos em cada fase não acontecem
necessariamente na localidade do cliente, nem do fornecedor. A capacitação
de diversos centros produtores de software, aliada ao desenvolvimento
das tecnologias de comunicação, permitiu que algumas etapas
do processo de produção de software fossem destinadas a
outros centros, exigindo, entretanto, um rigoroso controle da qualidade
do projeto. Isto permite que algumas empresas se concentrem em etapas
do processo que lhe proporcionem maior retorno e sejam mais críticas
ao projeto e destinem às outras empresas atividades menos intensiva
em conhecimento, haja vista a aplicação de ferramentas automatizadas
para estas fases. Nesta linha, a análise de requisitos de software
para um projeto particular pode acontecer no local demandante, utilizando-se
os analistas de sistemas, enquanto a etapa de programação
pode ser implementada em outro local, utilizando-se mão-de-obra
menos especializada, uma vez que já se tenha realizado toda a fase
de projeto do sistema. Na terminologia do mercado de software, essa prática
costuma-se se chamar de outsourcing e vem sendo muito utilizada pelos
países desenvolvidos destinando a países periféricos,
como Israel e Índia, o papel de codificar as especificações
dos sistemas (HEEKS, 1996).
Assim, tanto a codificação quanto a fase de teste podem
ser realizadas por empresas contratadas em outros locais, entretanto dependem
de vários fatores inclusive a disponibilidade de pessoal capacitado,
o custo, a habilidade para cumprimento de prazos, a existência de
rede de telecomunicações velozes e a utilização
de metodologias de gerenciamento à distância. Já outras
etapas como a instalação e a manutenção evolutiva
devem ser realizadas impreterivelmente no cliente. A manutenção
evolutiva, por exemplo, exige a elaboração de diagnóstico
e análise, o que requer o exercício de um analista de sistema.
Ademais se conclui que essas estratégias de desenvolvimento de
software exigem uma boa compreensão dos processos, mostrando-se
fundamental uma ampla cooperação entre as empresas que participam
do projeto.
A trajetória tecnológica da indústria de software
esteve desde o início atrelada à trajetória de desenvolvimento
do hardware. Entretanto, esta começou a se desenvolver de forma
independente, e sua autonomia originou uma série de conceitos e
tipologias que guiam o pesquisador para o entendimento dessa indústria.
Os estudos realizados na indústria de software tendem à
formação de tipos e classificações (segmentação
de mercado), possibilitando duas vertentes distintas de análises:
a) a forma como os produtos chegam ao mercado: pacote, customizado ou
embarcado; b) o tipo de domínio em que será aplicado: horizontal
ou vertical.
Na Seção 4 serão apresentadas as implicações
dessa tipologia nas estratégias competitivas adotadas na indústria
de software.
3 ESTRATÉGIAS COMPETITIVAS NA INDÚSTRIA DE SOFTWARE
De
acordo com Gaio (1990), software é parte intrínseca e penetrante
do paradigma de TI que tem características estranhas e complexas.
Primeiro, software é um elemento nuclear da TI por implementar
as características fundamentais de sistemas baseados em microeletrônica
que possuem a capacidade para executar uma gama extensiva de funções.
Segundo, software é uma ferramenta que gera um produto intangível,
cujo valor é determinado pela capacidade efetiva das operações
computacionais que são empreendidas e pela segurança da
representação dos domínios da aplicação
que é modelada, seguindo critérios estabelecidos pelos usuários.
Em síntese, software representa a incorporação do
conhecimento em produtos e sistemas de produção.
Desta maneira, o entendimento do termo "indústria de software"
pretende alargar o conceito de indústria, para compreender um grupo
de companhias com um produto característico (neste caso, software),
independente do conceito tradicional de indústria de transformação
de matéria-prima para a produção de mercadoria. Isto
se torna necessário, primeiro, devido à modelagem do termo
matéria-prima dentro da indústria, que se compõe
basicamente de conhecimento e, também, por seus produtos que são
uma sucessão de linhas codificadas denominadas "programas
de computação" ou "software”. Não
apresenta, portanto, nada tangível, mesmo que tenham sido utilizadas
ferramentas materiais (microcomputadores) na sua produção.
Além disso, a velocidade na qual as inovações são
introduzidas e transformadas em produtos novos e sua rápida obsolescência
são os destaques desta indústria que se mostra muito dinâmica.
Dessa maneira, é possível destacar, algumas características
básicas: "[...] a alta velocidade de introdução
de inovações técnicas e no desenvolvimento de produtos,
novos ou existentes; a competição acirrada; o baixo investimento
em capital fixo; e a capacidade criativa e intelectual da mão-de-obra,
que é o seu grande ativo" (BRANCO; MELO, 2003, p. 2).
Em conseqüência dessa dinâmica, o setor de software não
se apresenta muito estável, verificando-se um elevado nível
de nascimento e mortalidade de empresas. A mudança constante no
perfil das organizações é outro fator que se destaca
nessa indústria, tanto sobre o aspecto tecnológico, como
também organizacional.
Pondé (1993, p. 21) observa que “[...] o avanço tecnológico
e organizacional nas formas como o software é produzido constituía
uma questão central para o futuro da indústria [...]”
e a falta de capacitação (seja na qualidade do software
ou nas habilidades dos profissionais) das empresas para enfrentar essa
questão culminou na chamada crise do software. Este autor verificou
que a dificuldade em se estabelecer um processo de construção
de software com qualidade se mostrava como elemento central da discussão
tecnológica sobre o progresso da indústria.
Ainda hoje, este aspecto se evidencia como fundamental para a obtenção
de ganhos significativos de qualidade e produtividade na produção
de programas de computador. Isso se materializa, de uma maneira tal que
a difusão desigual entre as firmas do conhecimento de novas técnicas
produtivas torna-se um determinante potencial na geração
de assimetrias na distribuição de vantagens competitivas.O
entendimento dessa questão envolve três aspectos: a evolução
das linguagens de programação, a difusão de ferramentas
automatizadas de auxílio à
construção de softwares (CASE) e o surgimento de técnicas
e métodos para a gestão de projetos de software.
As linguagens de programação, em especial aquelas baseadas
em técnicas de orientação a objetos, tendem a evoluir
para formas mais complexas de desenvolvimento, constituindo os Frameworks
que exercem um significativo efeito na concepção e construção
dos programas de computador, com incrementos consideráveis de qualidade
e produtividade.
A vantagem de se utilizar esta tecnologia está na questão
da reusabilidade dos códigos e ratificação de padrões,
que proporciona ganhos de escala na construção do software.
Os resultados podem ser medidos pela melhoria da qualidade, pela redução
dos bugs (utilização de códigos pré-testados
e estáveis) e pelo aumento da produtividade na programação.
Em relação à difusão de ferramentas CASE,
verifica-se a automação parcial de diferentes atividades
relacionadas ao ciclo de vida do projeto, com impactos positivos sobre
a produtividade e qualidade. Deve-se destacar, contudo, que os ganhos
potenciais oriundos da utilização destas ferramentas estão
condicionados em grande parte à capacidade das empresas em aplicá-las
corretamente nas etapas produtivas do software, de modo que sua difusão
exige esforços de treinamento de pessoal e um aprendizado que leva
tempo, além de envolver alto custo na aquisição de
licenças de utilização.
O terceiro fator decorre de melhoramentos na forma de organizar e gerir
as atividades de desenvolvimento de software, estabelecendo mecanismos
mais eficazes para controlar, avaliar e dar suporte às atividades
de projeto. Atualmente, a sistematização do processo de
produção de software obteve ganhos significativos, principalmente
pela aplicação de técnicas como FPA e CMM que, entre
vários objetivos, se propõem a promover melhorias da qualidade
e produtividade no processo de construção de softwares.
Entretanto a implantação do CMM exige não só
conhecimento técnico e treinamento exaustivo, como um alinhamento
estratégico com as metas da organização, sem o que
sua aplicação fica inviabilizada, pois a adoção
desse modelo, na maioria das vezes, implica uma ampla mudança no
processo produtivo, exigindo esforços e investimentos elevados.
Outra questão importante para se mensurar a dinâmica desse
setor gira em torno da composição e evolução
da base instalada de hardware, que constitui um importante parâmetro
para a atuação das empresas de software, pois delimita as
perspectivas de crescimento da demanda por tipos específicos de
programa. A difusão dos microcomputadores nos anos oitenta e a
criação de mercados bilionários para diversos tipos
de pacotes exemplificam esta questão.
Dessa forma, novidade e heterogeneidades são características
do jogo concorrencial das empresas estabelecidas no setor, que possuem
produtos divididos em diversos segmentos.
Um exemplo concreto da heterogeneidade do setor de software consiste na
evidência de que vários fabricantes de hardware elegeram
o mercado de software como uma forma de diversificação,
constituindo-se num foco destacado das suas estratégias de negócios.
Este movimento tem origem na crescente tendência à padronização
dos equipamentos de processamento de dados, reduzindo o espaço
para a diferenciação de produto e intensificando a concorrência
via preço, que acabou também impactando os mercados de sistemas
de arquiteturas proprietárias, pois os usuários preferem
produtos com padrões mais difundidos, de forma a reduzir a dependência
tecnológica de um único fabricante. Conseqüentemente,
as margens de lucro caíram e as empresas buscaram ofertar software
e serviços diversos junto com seus equipamentos, o que constitui
uma forma de elevar o valor agregado dos sistemas comercializados e um
meio de diferenciação de produto (PONDÉ, 1993). Além
disso, à medida que a biblioteca disponível de aplicativos
constituiu um elemento fundamental nas decisões dos usuários
referentes a aquisições de plataformas de hardware, os fabricantes
destas procuraram firmar parcerias com as softwarehouses de modo a garantir
uma oferta adequada de software compatível com os seus sistemas.
Destaca-se ainda a perspectivas dos retornos crescentes obtidos a partir
da difusão de softwares específicos, cuja ampliação
da base instalada proporciona externalidades de rede providenciando um
importante ganho de competitividade (GRAEML, 2003).
As softwarehouses, por sua vez, conseguiram evoluir para outras formas
de comercialização de serviços que a tradicional
produção de software, percebendo-se uma nova divisão
de segmento estabelecido sobre o tipo de atividade desempenhada na cadeia
de valor, como a elaboração e aplicação de
metodologias e a consultoria em etapas de projetos. Estas são atividades
que envolvem competências acumuladas por algumas empresas ao longo
de seu funcionamento e foram reformuladas para atender à demanda
proveniente de outras empresas do setor ou de usuários finais.
A característica mais importante dessas atividades é que
além do uso intensivo de conceitos de software, é necessária
a utilização de capacitações prévias
oriundas do conhecimento acumulado ao longo da vida da organização,
combinada a uma forte articulação com os demandantes de
serviços, que muitas vezes são empresas que também
atuam no setor de software.
O que se verifica é o deslocamento das competências ao longo
da cadeia produtiva do software, na qual a fragmentação
em etapas permite a atuação especializada de algumas empresas
com considerável sucesso. Uma das grandes limitações
dessa estratégia é a distância geográfica dos
centros consumidores de serviços. Embora algumas metodologias de
gerenciamento de projetos de software contemplem a coordenação
à distância, verificam-se aí alguns elementos que
dificultam o processo: a questão da capacidade gerencial dos projetos,
incrementada pelo tempo de resposta à demanda dos clientes, que
se acentua à medida que não é possível estabelecer
toda a infra-estrutura necessária para a execução
do serviço no local demandante; e o incremento dos custos de transação,
haja vista a necessidade de deslocamento de equipes que trabalham com
dedicação exclusiva e a manutenção de estrutura
de apoio à execução dos serviços solicitados.
Dessa forma, como “[...] mobilidade e organização
tornam-se ativos cruciais para que um ofertante de serviço possa
estabelecer uma relação bem-sucedida com clientes; e a qualidade
e a eficiência na oferta de serviços é altamente afetada
por barreiras territoriais” (TEIXEIRA; GUERRA, 2002, p.195), esses
fatores se mostram prejudiciais ao desenvolvimento desse tipo de estratégia.
Ademais, com o aumento da complexidade e do tamanho dos sistemas, a ampliação
das possibilidades de se utilizar conjuntamente produtos de distintos
fabricantes, aliada à necessidade de se desenvolver soluções
customizadas, faz com que cada vez mais soluções completas
e totalmente configuradas sejam encomendadas aos fabricantes de software
com a tarefa de combinar componentes de hardware e software em sistemas
apropriados às suas necessidades, envolvendo esforços e
competências em diversas áreas da computação.
Segundo Pondé (1993), tem-se nesta atividade um mercado no qual
a diversificação em direção à integração
de sistemas aparece como um caminho que provoca uma mudança na
forma de comercialização dos programas, pois, na medida
em que o contato direto com o usuário passa a ser feito pelo integrador,
este último pode constituir um canal importante para a venda de
softwares.
Por outro lado, analisando a divisão de segmentos segundo a forma
como os produtos chegam ao mercado, percebe-se que o software de pacote
atinge um amplo número de clientes, sendo normalmente padrão
e tem a característica de que, durante sua produção,
não existe interação direta entre o usuário
e o fornecedor. Assim, não existe cliente exclusivo que imprima
modificações no software de acordo com sua necessidade,
o que torna possível o produto existir por si só, independentemente
de requisitos de usuários.
A comercialização desse tipo de software se dá através
de vendas em prateleiras e a estratégia de marketing e vendas é
semelhante à utilizada para equipamentos de hardware. A competição
se concretiza com a distribuição em massa dos produtos,
envolvendo altos custos para criação e lançamento.
Dessa forma, companhias líderes investem pesadamente na estratégia
de vendas e divulgação da marca.
Entretanto, algumas empresas avançaram no conceito de software
de pacote e começaram a fornecer personalização de
funções aos seus clientes, o que constitui um diferencial
competitivo muito importante para a expansão do market share. Contudo,
essa estratégia envolve riscos inerentes aos custos e prazos de
desenvolvimento das personalizações.
Softwares customizados são programas feitos sob encomenda, normalmente
resultam de programas solicitados por usuários. Os usuários
especificam antecipadamente os requisitos gerais e específicos,
aparentando mais a execução de serviços que a construção
de um produto. Deste modo, a interação entre usuário
e fornecedor é intrínseco à fabricação
do produto, diferente do que acontece em software de pacote. Dois fatores
competitivos importantes nesse segmento são a capacitação
da empresa para executar o serviço e um bom relacionamento com
os clientes. Os riscos de mercado são menores porque as vendas
são realizadas anteriormente. Porém os custos de desenvolvimento
são mais significativos.
Em relação aos softwares embarcados, sua característica
básica é o fato de que este é comercializado dentro
de um equipamento. Atualmente, qualquer equipamento automatizado traz
seu software embutido, algo que faz deste segmento um dos mais dinâmicos.
Embora o software embarcado tenha sido utilizado inicialmente em equipamentos
industriais, atualmente – com o desenvolvimento da microeletrônica
e com o advento dos equipamentos automatizados em diferentes áreas
(contabilidade, educação, saúde, geofísica
e outros) – o número de funções executadas
por estes aumentou consideravelmente (RIBEIRO,1998). Existe uma dificuldade
de se estimar o valor total da produção deste tipo de software,
tendo em vista que seu valor é agregado ao custo do produto manufaturado
como um todo.
Agora, considerando-se o tipo de domínio de aplicação,
podem-se distinguir duas grandes categorias: horizontal e vertical.
-
Segmento horizontal: Seu conteúdo normalmente é da área
de computação, com pequeno contexto específico
de outra área de informação. É vendido por
meio de pacotes, deve ser flexível, desde que seu objetivo seja
resolver problemas básicos de informação nas áreas
mais diversas. São exemplos de produtos de segmento horizontais,
sistemas operacionais, planilhas eletrônicas, bancos de dados
e processadores de textos, entre outros. Freqüentemente, eles se
tornam ferramentas de desenvolvimento de software no segmento vertical.
Este segmento apresenta a característica de possuir um ciclo
de vida curto devido à dinâmica da informática;
- Segmento
vertical: Os programas são desenvolvidos para uma atividade econômica
específica (saúde, educação, geofísica,
contabilidade, etc.) e pode ser vendido em pacotes (prateleiras de lojas
especializadas) ou, e especialmente, feito sob encomenda. Assim, para
o desenvolvimento deste tipo de software é necessária,
além do conhecimento dos conceitos computacionais, a utilização
de conhecimentos específicos de cada domínio de aplicação.
Essa característica determina um ciclo de vida mais longo que
o segmento horizontal.
A
respeito dessa segmentação, Pondé (1993, p.24) observa:
A
proliferação de padrões e a crescente compatibilidade
entre sistemas de diferentes fabricantes têm feito com que, no
mercado de aplicativos (segmento horizontal), as empresas deixem de
competir em segmentos restritos a usuários que utilizam plataformas
de hardware específicas. Isto gera um incremento do número
de empresas concorrendo em um mesmo espaço de atuação,
na medida em que desaparecem algumas fronteiras entre mercados, mas
pode levar também a uma maior concentração, pois
as possibilidades de conquistar posições de liderança
a partir do usufruto de economias de escala se ampliam – especialmente
no mercado de pacotes. Na área de software de sistemas (segmento
vertical) a tendência é que o mercado se organize em torno
de soluções padronizadas dominantes, gerando posições
quase monopolistas para as empresas que as ofertam.
Assim,
a importância de se construir tipologias para segmentação
da indústria se verifica à medida que se consegue identificar
padrões de concorrência característicos de cada segmento
e também pelo fato de serem percebidos fatores específicos
para determinação da competitividade em cada um deles.
Dessa forma, todas estas definições e caracterizações
são pertinentes porque, além de facilitar a compreensão
da dinâmica tecnológica desta indústria, elas servem
como subsídio instrumental às análises de competição
dentro dos diversos segmentos apresentados. Desta maneira, em setores
onde mudanças tecnológicas são muito rápidas,
existe uma forte relação entre o desempenho da companhia
e sua capacidade tecnológica. Como exemplo, considerando o mercado
de destino, a empresa poderia seguir dois caminhos para a obtenção
de sucesso do seu produto no mercado:
Se
quiser ir para o mercado horizontal, deveria entrar com inovação
radical ou inovações com incremento, no caso de companhias
com monopólio forte no segmento; se quiser entrar no mercado
vertical, pode fazer assim com inovações incrementais,
mas esses devem deter conhecimentos sólidos da área de
aplicação (FRICK; NUNES, 1996).
Atualmente
se verifica a atuação de um número pequeno de grandes
empresas no segmento horizontal e um elevado número de pequenas
empresas no segmento vertical.
Uma análise mais detalhada dessas classificações
evidencia que, embora não existam elevadas barreiras para a entrada,
com permissão de proliferação de companhias menores,
as dificuldades para o crescimento são significativas, uma vez
que as corporações de grande porte ocupam segmentos estratégicos
e lucrativos. Quer dizer, na organização da indústria
de software, ocorre uma co-existência natural entre fragmentação
e concentração. Este fato decorre da incapacidade de as
grandes empresas aumentarem suas metas de desempenho para tirar proveito
das oportunidades existentes, ou pela natureza fragmentada da demanda
de uma quantidade enorme de produtos. Há uma configuração
dinâmica em que a estrutura da indústria constantemente é
remodelada pelo aparecimento de produtos e segmentos novos. Uma intensa
concentração é verificada em produtos do segmento
horizontal, como planilhas eletrônicas, processadores de textos,
bancos de dados e sistemas operacionais, permitindo a sobrevivência
e a reprodução de companhias pequenas e de médio
porte no segmento vertical.
Assim, uma forte dinâmica tecnológica é o grande termômetro
desta indústria, porque modifica os ciclos de vida dos softwares
existentes, ampliando para os usuários a oferta de produtos.
Entretanto, como os produtos de software apresentam um dinamismo tecnológico
intenso, em que se combinam reduções nos seus ciclos de
vida e a ampliação do leque de alternativas disponíveis
para os usuários, verifica-se que as empresas – especialmente
as de maior porte – iniciaram movimentos de diversificação
e esforços no sentido da ampliação da sua base de
capacitações tecnológicas e da busca de canais de
distribuição que garantam seu acesso nos mercados emergentes.
Neste contexto, são instrumentos destacados de expansão
as parcerias tecnológicas, os acordos de marketing e distribuição,
as fusões e as aquisições.
Pondé (1993) observa que as estratégias das empresas de
software são fortemente influenciadas pelo seu porte e o tipo de
mercado em que atuam. Percebe-se, por exemplo, que as empresas que detêm
a liderança do segmento de software de pacote, atuam explorando
de forma agressiva as vantagens proporcionadas pelas economias de escala,
rede de vendas, estrutura de suporte abrangente e marca reconhecida, configurando
um padrão de concorrência onde o marketing assume uma dimensão
decisiva. Ademais, as capacitações acumuladas por essas
empresas, aliadas ao seu poder financeiro, permitem a diversificação
dos serviços em direção à execução
de atividades em outros segmentos, proporcionando a entrada em mercados
que atingem dimensões econômicas razoáveis e apresentam
taxas de crescimento bastante promissoras, utilizando para isto mecanismos
de associações e aquisições de empresas menores.
Essa diversificação também inclui a busca de mercados
em outros países, conduzindo as empresas à trajetória
de um crescente grau de internacionalização.
Ainda segundo esse autor, é importante ressaltar que as características
intrínsecas do software enquanto produto, destacadamente o alto
peso dos custos fixos na sua produção, combinado com baixos
custos marginais, proporcionam à firma que consegue expandir suas
vendas um grande potencial de crescimento. Assim, os incrementos nas margens
de lucro com custos marginais de produção insignificantes
são uma combinação que rapidamente leva à
oligopolização dos mercados mais dinâmicos, que acabam
evoluindo para um padrão mais concentrado em torno de poucas corporações
com sólidas posições tecnológicas, financeiras
e de marketing, que levaria, em último caso, à saída
das empresas marginas do mercado (STEINDL,1983).
Entretanto as empresas que atuam no mercado de software por encomenda,
competem segundo suas capacitações e habilidades, o que
lhes permite não só chegar a soluções customizadas
para resolver problemas específicos dos clientes, como também
agregar um montante significativo de serviços – consultoria,
treinamento, etc – aos sistemas oferecidos. O projeto de grandes
sistemas requer ainda recursos financeiros consideráveis e uma
imagem de confiabilidade consolidada, nos quais muitas vezes recorre-se
ao deslocamento do risco do projeto para os clientes, uma vez que muitas
dessas empresas são de pequeno e médio porte e não
dispõem de muitos recursos financeiros.
Em relação às empresas de menor porte, suas estratégias
se baseiam em duas vertentes. A primeira consiste na especialização
em determinado domínio de aplicação, procurando atender
às demandas de um grupo de clientes. Este tipo de relação
tem a característica da manutenção de uma certa dependência
mútua: de um lado, o cliente como demandante de serviços
e, de outro, o fornecedor de software como conhecedor dos processos da
empresa. Para este tipo de estratégia, é necessário
que se estabeleçam relações baseadas em vínculos
de confiança mútua, ricas em trocas de informações,
cooperação e aprendizado interativo. O segundo tipo recorre
ao caráter multidimensional dos produtos de software, que é
aproveitado para a implementação de uma diferenciação
de produto voltada para a ocupação de pequenos espaços
deixados pelas empresas líderes. Isso decorre da incapacidade das
grandes empresas em atender a todos os segmento de mercado. Assim, essas
estratégias sobrevivem devido à fragmentação
característica da indústria de software, bem como pelo fato
de que os conhecimentos, técnicas e ferramentas para o desenvolvimento
de programas serem relativamente acessíveis para os novos entrantes.
Uma discussão atual sobre as estratégias empresariais é
a questão do software livre, que promete efetuar uma reviravolta
no jogo competitivo de alguns segmentos. Empresas como a Microsoft, que
obteve vantagens competitivas oriundas de informações privilegiadas
de seus sistemas operacionais, se vêem agora em uma situação
crítica, haja vista a preferência dos usuários pela
redução de custo com a aquisição do software
livre (é bom lembrar que estes softwares possuem requisitos de
qualidade iguais ou melhores que outros de arquiteturas proprietárias).
A Microsoft considerou, em um relatório trimestral entregue à
Comissão de Valores Mobiliários (SEC – Securities
and Exchange Commission) dos Estados Unidos, o movimento de software de
código aberto como uma ameaça a seu modelo de negócios.
A popularização do movimento de software livre mostra um
desafio significativo ao modelo de negócios de algumas companhias,
ante as recentes tentativas dos representantes do modelo de código
aberto a convencer governos de todo o mundo a escolher o software livre
em suas compras e desenvolvimento de novos aplicativos.
Entretanto, atualmente, as empresas líderes em âmbito internacional
estão adotando estratégias bastante agressivas de ocupação
do mercado e expansão da base instalada, atuando em três
frentes:
-
ampliação dos esforços de marketing: efetuando
reforço da marca perante os clientes locais e reestruturando
as redes de distribuição e suporte;
- reduções
de preço, visando ampliar o market share;
- estabelecimento
de parcerias e aquisições de outras empresas do setor
(COMPUTERWORLD, 2003).
Analisando-se
as informações apresentadas até este ponto e confrontando
com a metodologia de estudo de competitividade aplicada ao Estudo de Competitividade
da Indústria Brasileira (COUTINHO; FERRAZ, 1994), percebem-se quatro
estratégias competitivas distintas na indústria de software:
-
Custos: verificam-se economias de escopo provenientes de utilização
dos mesmos canais de distribuição e reestruturação
de processos organizacionais, além da obtenção
de economia de escala e redução do preço final
ao cliente com a utilização de ferramentas automatizadas.
Este padrão, embora característico de segmentos mais
comoditizados (pacotes), consegue ser percebido nos diversos segmentos
da indústria de software, inclusive naqueles que se mostram
mais diferenciáveis.
-
Diferenciação:
caracterizada pelo fornecimento de serviços personalizados
e pela disponibilidade de funções específicas,
bem como pela construção de rede de suporte a usuários
e pelo aumento dos padrões de qualidade. É normalmente
verificado no segmento de softwares diferenciados, podendo também
ser praticado por pequenas empresas no que tange à utilização
de capacitações acumuladas para atendimento às
demandas específicas de um determinado grupo de clientes;
-
Inovação:
o potencial financeiro se faz essencial para este padrão de
concorrência. As empresas necessitam despender esforços
para capacitação em P&D, tanto sobre o aspecto físico,
quanto humano, sendo então característico de empresas
de maior porte;
-
Responsiviness:
este padrão possui maior aderência às estratégias
praticadas por empresas de menor porte do segmento de encomenda, haja
vista a especificidade de demanda de alguns clientes, que exige uma
ampla flexibilidade produtiva das empresas.
Assim,
a análise das informações apresentadas até
este ponto permite construir uma breve conclusão sobre alguns conceitos
apresentados nesta seção, na qual se abordou a concepção
das estratégias competitivas, as implicações dos
padrões de concorrência prevalecentes na indústria
e os fatores determinantes da competitividade.
Em relação às estratégias competitivas, observa-se
que elas representam as ações das empresas na busca de um
posicionamento que lhes forneça a vantagem competitiva necessária
a seu crescimento ou a sua manutenção de forma sustentável.
Para tanto, a estratégia competitiva é influenciada por
uma série de fatores internos e externos à empresa, que
abrangem o volume de capacitações acumuladas, o potencial
financeiro, a estrutura da indústria, o posicionamento da empresa
no mercado, os concorrentes, as condições da demanda, entre
outros.
Já o padrão de concorrência envolveria o conjunto
de estratégias aplicadas em cada espaço de competição
(mercado ou indústria, região, nação) e se
revela através de um aglomerado de formas de concorrência
que são dominantes nesses espaços, variando conforme as
transformações tecnológicas, organizacionais, industriais
e econômicas.
4 CONCLUSÕES
Atualmente,
coexiste no mercado uma grande diversidade de estratégias em meio
a um número relativamente pequeno de firmas de grande porte que
prestam serviços de informática a grandes clientes e a uma
maior quantidade de médias e pequenas empresas que seguem, predominantemente,
estratégias de sobrevivência, buscando nichos relativamente
protegidos da competência de seus concorrentes de maior porte e,
em geral, atendem a usuários locais de todos os setores e tamanhos.
As maiores empresas produtoras de software são as que têm
menor dificuldade de acesso aos profissionais qualificados, possuem mais
recursos para implementar os sistemas de qualidade, utilizam ferramentas
mais complexas e têm as menores dificuldades para a obtenção
de financiamento. Além disso, ainda existe o caso de firmas estrangeiras
que contam com o apoio e o respaldo de suas matrizes em termos não
só financeiros, como tecnológicos e comerciais.
De acordo com os padrões de concorrência predominantes na
indústria de software, é possível identificar alguns
aspectos que materializam ou dificultam a adoção das estratégias
competitivas.
A estratégia de inovação é uma importante
fonte de vantagem competitiva que pode ser adotada em todos os segmentos
da indústria de software.
Já a estratégia de responsiviness, como envolve aspectos
relacionados à flexibilidade produtiva, teria maior aderência
ao segmento de software por encomenda, pois neste as questões relacionadas
à rapidez e a habilidade de servir o mercado se mostram essenciais.
Essa estratégia é pouco aderente ao segmento de pacotes,
pelas características da padronização de serviços
e da forma de comercialização.
Em relação à estratégia de diferenciação,
geralmente levam-se em consideração os aspectos referentes
à qualidade, à imagem e à confiabilidade das empresas.
Dessa forma, esta estratégia parece perfeitamente aplicável
a qualquer segmento da indústria, através da qual poderiam
ser alcançados tanto benefícios tangíveis, como manutenção
de padrões, quanto intangíveis, relacionados à consolidação
da marca e satisfação dos clientes, entre outros.
A estratégia de custos é outra fonte de vantagem competitiva
que pode ser empregada pelas empresas em todos os segmentos da indústria
de software. Entretanto, como será discutido adiante, alguns cuidados
devem ser considerados para a sua adoção.
Agregam-se nessa estratégia os indicadores relativos à estrutura
de custos, à produtividade, à contratação
de mão-de-obra e às práticas de engenharia de software
para a obtenção de economias de escala.
Neste ponto, cabe uma breve discussão sobre a adoção
concomitante das estratégias de custo e diferenciação.
É interessante observar que a competição por custo
na indústria de software se mostra um pouco paradoxal quanto à
estratégia de diferenciação, pois se a atividade
de se construir software é bastante intensiva em conhecimento e
aspectos ligados à qualidade do software são fatores essenciais
para o sucesso dos projetos, então, seguindo o pensamento de Porter
(1989) sobre a extrema dificuldade em se manter estratégias concomitantes
de baixo custo e diferenciação por qualidade, seria possível
utilizar estratégias de baixo custo na indústria de software?
Possível é, no entanto só através de soluções
que contemplem a obtenção de economias de produção,
seja com inovações tecnológicas, seja através
da reutilização de códigos, mas qualquer outra solução
que venha a prejudicar a qualidade dos projetos parece desastrosa para
esta questão. Na prática, a indústria local já
acumula alguns casos de fracasso justamente quando se tentou reduzir a
capacitação da mão-de-obra para a obtenção
de vantagem de custo.
Convém citar, que a perspectiva para o desenvolvimento do setor
abrange uma série de fatores relacionados à competitividade
sistêmica que exercem interferência direta na perspectiva
de elaboração e execução das estratégias.
Portanto, o desenvolvimento da indústria, é marcado e dificultado
enormemente pelas limitações impostas pela situação
do conjunto de fatores de competitividade do setor de software.
Enfim, a competitividade é, então, o resultado da adequação
das estratégias competitivas adotadas pela empresa ao padrão
de concorrência prevalecente em cada mercado ou segmento. O padrão
de concorrência é a variável independente enquanto
a competitividade é a variável dependente. O elemento básico
de análise da competitividade é a empresa, considerada como
um espaço de planejamento e organização da produção
que se estrutura em torno de suas capacitações. Contudo
a competitividade está relacionada não somente às
questões internas à firma, como também à capacidade
dos governos, ao comportamento da sociedade e aos recursos disponíveis,
exigindo, portanto, uma abordagem sistêmica para o seu completo
entendimento. Assim, num âmbito mais amplo, a competitividade de
indústrias ou firmas depende de um ambiente social, política
e economicamente estável, de instituições eficientes,
de sistemas educacionais adequados e de políticas industriais que
favoreçam o desenvolvimento de forma sustentável.
REFERÊNCIAS
BRANCO,
C. E. C.; MELO P. R. de S. Proposta de atuação para
o BNDES no setor de software. Disponível em: <http://www.bndes.gov.br/conhecimento/bnset/sofset02.pdf
>. Acesso em: 10 fev 2003.
COMPUTERWORLD.
Oracle permanece na liderança de mercado de DBMS.
Disponível em: <http://computerworld.terra.com.br/templ_textos/noticias.asp?
id=11636>. Acesso em: 19 fev. 2003.
FRICK,
S.; NUNES, R. Produtos, estruturas de mercado e estratégias
competitivas no setor de software. Economia & Empresa, v.3,
n.1, p.34-44, 1996.
GAIO,
F. The development of computer software technological capabilities
in developing countries: a case study of Brazil. 1990. Thesis
(Doctor of Philosophy)- University of Sussex, April 1990.
Graeml,
Alexandre R. Sistemas de informação: O alinhamento
da estratégia de TI com a estratégia competitiva.
São Paulo: Atlas, 2003.
HEEKS,
R. India's software industry: state policy, liberalisation and
industrial development. New Delhi: Sage Publications, 1996.
KUPFER,
D. Made in Mercosur: avaliação de competitividade
visando à promoção da integração regional.
Rio de Janeiro: GIC-IE/UFRJ, 2000.
PONDÉ,
J.L. Competitividade da Indústria de Software: nota técnica
setorial do complexo eletrônico – ECIB. São
Paulo: Ministério da Ciência e Tecnologia, 1993.
PORTER,
M.E. A vantagem competitiva das nações.
Rio de Janeiro: Campus, 1989.
RIBEIRO,
A. A indústria brasileira de software: qualidade como um
fator de competitividade. 1998. Dissertação (Mestrado
em Economia) – IE-Unicamp, Campinas, 1998.
STEINDL,
J. Maturidade e estagnação do capitalismo americano.
São Paulo: Abril Cultural, 1983.
TEIXEIRA,
F.; GUERRA, O. Estratégia para o desenvolvimento da indústria
na Região Metropolitana de Salvador.In: AVENA, Armando
(Org.). Bahia Século XXI. Salvador: SEPLANTEC, 2002. p. 149-204.
|